quinta-feira, 28 de junho de 2007

Entre Dois 'Rios'

Nessa semana passei por algumas experiências contrastantes para quem mora no Rio de Janeiro e tem que atravessar a cidade para trabalhar. Como eu, são inúmeras as pessoas que em algum momento já pararam para pensar no quão contraditória é a vida na chamada 'Cidade Maravilhosa'. Uma cidade que oferece vistas lindas, como o Pão de Açúcar e que, ao mesmo tempo, mostra estampado nas primeiras páginas dos jornais uma mulher sendo carregada após ter sido atingida por uma bala perdida.

Na segunda-feira, ao chegar em uma das escolas em que trabalho, via rostos assustados, tensos. As pessoas transpiravam medo e em silêncio, expressavam a vontade de não estar ali. Na Ilha do Governador, bairro como muitos do Rio cercado por favelas, de uns tempos pra cá, as coisas mudaram. Naquela manhã um tiroteio entre bandidos e policiais deixou o bairro em alerta. Uma delegacia havia sido metralhada e tiros eram ouvidos nos arredores ainda no início da tarde. Por conta desse clima de incertezas, a escola optou por fechar mais cedo. Fiquei aliviada. Só que para mim, morando fora da Ilha, o 'tormento' não acabaria ao sair de lá. Se pensar bem, o de ninguém acabaria.

No caminho de casa pensava novamente em como estamos cercados pelo perigo, mas não é só isso. Saímos para trabalhar sem saber o que nos aguarda. Longe de mim ter pensamentos negativos. Minha mãe, que está longe, sente cólicas quando vê os noticiários. Eu há muito deixei de vê-los. Escolho o que quero assistir por opção, para não entrar no clima. Entretanto, é impossível não pensar em certas coisas.

Hoje pela manhã, saí para andar por aí. Um dos locais que acho mais carioca é o 'Camelódromo' da Uruguaiana. Ali encontramos de tudo. O mais atraente, lógico, são os preços dos produtos. Você encontra o shopping da Zona Sul, sem a marca. E mais, conhece de perto o dia-a-dia de pessoas que lutam para garantir o sustento delas e das suas famílias. Infelizmente, dessas pessoas, pouco se fala.

Há o vendedor de pilhas que ao te ver, já sabe o que você vai comprar. Apenas espera pela confirmação. Na sua mão já está o pacote pronto para receber o produto recém adquirido. Ao lado, o vendedor de cds. Sorrindo, te mostra com atenção todas as variedades de embalagens para os discos e explica a diferença entre as cores deles, o prata, o azul, o ouro... Paciente, repete os preços duas, três vezes. Parece não se importar. Cumprimenta o 'compadre' da loja do lado e fala ao celular, e não te perde de vista. E há ainda as infinitas lojas em que você compra os últimos lançamentos em DVD ou CD e recebe um cartão fidelidade. Tipo, depois de 10, você ganha um à sua escolha, inteiramente grátis!

Ao entrar no ônibus, o motorista sorri e te deseja um bom-dia. O mesmo faz a trocadora, que a cada passageiro, repete o mesmo gesto. Não estamos mais acostumados com tanta gentileza, não é mesmo? Algumas pessoas passam por ela e nem a olham. Mesmo assim, ela não desiste. Passa um, outro, mais outro, enfim, incontáveis saudações, que com certeza vêm de alguém que as fala de coração.

Já no Flamengo, a moça que vende coco gelado te oferece um. Te dá o banco para sentar. Comenta sobre o movimento, sobre o 'veranico' carioca e claro, no dia seguinte do fiasco do Brasil na Copa Amércia, fala mal do Dunga! Na banca de jornal, uma rápida (?) conversa que demora 20 minutos. Zé, o fiel jornaleiro da Senador, quando vê um cliente 'habitué', já vai logo pegando o jornal e a revista que ele lê. Oferece bala, um copo d'água... Pergunta da mãe, do pai, do cachorro, do papagaio, da vida. E adora uma prosa. Se for falar de futebol então... Com o Botafogo bem no Brasileirão ... o assunto rende...

É isso. Os dois lados de uma cidade que para mim continua sendo 'maravilhosa' e resiste, e como, aos desmandos dos seus governos e à ordem imposta por criminosos. Parece até lugar comum escrever sobre isso. Será que é mesmo? Eu gosto do Rio com todas essas contradições. Aprendi a gostar e respeitar o jeito 'carioca' de ser e há quem diga que já me transformei em uma. Já incorporei o 'carioquês' na minha vida. O que posso desejar é que o Rio reencontre seu brilho e se não for sonhar muito, que um dia eu e todos que aqui vivem, possam acordar em uma cidade livre das coisas más e refém somente do amor e da compaixão.


Fotos: terrabrasil.org.br / olhares.aeiou.pt