domingo, 4 de novembro de 2007

Carolina

O relógio marca sete e meia da noite. Todos estão agitados à espera de entrar na sala. No meio dessas pessoas quatro mulheres. Em comum o gosto pela leitura e a curiosidade sobre ele. Ele. Considerado o maior dos escritores nacionais. Fundou a Academia Brasileira de Letras. Quando se foi, nos deixou um legado que durará para sempre. Suas palavras, seus textos são atemporais. Suas personagens tingidas de ironia e crítica à sociedade, podem estar em qualquer esquina, ao nosso lado no banco do ônibus.

Muitas foram as mulheres que ele descreveu. Amou apenas uma delas. Carolina. Sua companheira de anos. Imaginava que iria ao encontro do infinito primeiro do que ela. Quis o destino, que ela fosse antes e que o esperasse para juntos eternizarem seu amor.

Um diálogo entre todas elas deu início a história que seria contada. Na sala estavam Capitu de 'Dom Casmurro', Guiomar de 'A mão e a luva', Helena de 'Helena' e a própria Carolina. O relógio dita o tempo da narrativa. A cada 'minuto' ele se adiantava e se aproximava daquele que seria o fim. Ela se foi.

Após sua morte, a ela dedicou esse soneto, cujos versos emocionaram as quatro mulheres que foram testemunhar os diálogos entre essas quatro personagens. E que com elas tomaram café e sentaram à sua mesa para o jantar.

'A Carolina'

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida
Aqui venho e virei, pobre querida
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida
fez da nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados
São pensamentos idos e vividos.

(Machado de Assis)