sexta-feira, 20 de junho de 2008

Eu caí da escada

Era dia 9 de julho de 1994, estava de férias da faculdade em casa e acompanhava os jogos da Copa de 94 que aconteciam nos Estados Unidos. Vivia entusiasmada por um tal de Roberto Baggio, cujo rosto já conhecia desde a copa anterior. O futebol, não. Esse descobri ao longo do torneio e cada vez mais o achava um quase Da Vinci da bola. E com o par de olhos mais belos que já havia visto nos meus parcos 18 anos de vida.

Nas oitvas-de-final, Itália e Espanha se enfrentariam. Aguardava ansiosa o início do jogo. Não havia ninguém em casa. Acredito que meus pais tinham saído para fazer a feira da semana. Nessa época, minha mãe tinha uma pequena loja de presentes que ficava no segundo andar e eu a ajudava quando ela precisava. Se alguém surgisse, lá estava eu para atender e para a alegria de Mamma Sofia, vender.

Por várias vezes me lembro de estar vendo um filme legal ou conversando com alguém no telefone e a camapinha tocava. Com esse jogo não poderia ser diferente. Só que algo mais inusitado ainda ocorreu.

É preciso dizer que usava um dos meus sapatos prediletos. A campainha tocou. Fui atender e vi que se tratava de uma das freguesas mais cativas de minha mãe. Nessa hora, imaginei que meu jogo já tinha ido para as cucuias. E a moça gosta de um papo, como eu, mas não quando se quer ver um jogo e a pessoa fala sem parar...

Para meu alívio, uma meia hora depois, a moça se foi. E eu ainda tinha que retornar e organizar as coisas. Consegui saber que o jogo estava empatado, e ficava com aquele nó no estômago de nervoso.

Arrumava as coisas quando ouvi o cara da TV gritar goooolllllllllll e ao mesmo tempo, a campainha tocou. Saí correndo como louca, sem saber se iria atender a porta, ou ver o gol do Baggio. Nem poderia, ao passar pelo primeiro degrau, um barulho preencheu o silêncio da casa, só ameaçado pelo volume da TV. O sapato predileto escorregava. Fui rolando escada a baixo e só parei no primeiro degrau. Fiquei quieta, parada, encolhida. E comecei a rir, mais de nervoso do que de graça. A campainha continuava a tocar e eu não tive coragem de atender. Levantei depois de alguns minutos, e vi que a pessoa permanecia no portão, e eu a espiava por detrás da janela.

Dias depois, a pessoa que tinha ido lá em casa, comentou com minha mãe que havia estado lá, e não havia ninguém em casa, mesmo as janelas estando abertas. Minha mãe me olhou com aquele olhar que só filhos entendem quando os pais estão furiosos. Na cara-de-pau, disse, 'estava vendo o gol do Roberto Baggio. Não deu, mamma. Quando voltei, ela já tinha ido embora!'

A Itália se classificou para a semi-final. Teve aquele lance do Luis Enrique com o Tassoti. O gol salvador de Baggio. Meu tombo de escada. Assim 'assisti' as quartas-de-final dessa copa! Inesquecível.

Bem, Aqui onde moro não tem escada para descer, mas há o temido elevador. Acho que nem vou sair de casa no domingo. E vou bater na madeira umas 10 vezes depois de escrever esse post.
Uma lição aprendi: saí ilesa desse tombo e nunca, nunca mais desci uma escada correndo. Aprendi tarde... Mas que foi engraçado, isso foi.