terça-feira, 19 de agosto de 2008

Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado

Ultimamente tenho dado sorte com os livros que pego para ler. Nunca achei uma tarefa fácil passar para o papel as impressões que ficam com essas leituras. O livro é um objeto estranho. Ele te encanta, te emociona e te faz viajar nas suas páginas ao mesmo tempo que pode te causar repulsa logo no início e você o deixa de lado.

Há muito tenho um objetivo. Ler livros sobre futebol, mas que fujam da abordagem técnico-tática e coisas afins. Prefiro os que falam de sua história e evolução e a relação que esse esporte estabelece com a economia, política e o desenvolvimento de uma nação.

O livro escrito pelo sociólgo Jorge Caldeira não fica só nisso. Como o próprio nome diz, passa mais por um viés biográfico da carreira de Ronaldo Luiz Nazário de Lima até a final da Copa do Mundo de 2002, vencida pela Seleção Brasileira, que sagrava-se na ocasião pentacampeã mundial no esporte que fascina milhões de pessoas no mundo todo e é febre on Brasil.

O leitor é surpreendido com detalhes do início da carreira de Ronaldo. Ele foi precoce em tudo. Desde sua carreira nos juvenis do São Cristóvão até mesmo na gestão de seus negócios, cuidadosamente planejados pelos seus primeiros empresários Reinaldo Pitta e Alexandre Martins, que viram nele a chance de trazer para o futebol brasileiro um novo conceito de gestão na carreira de atletas. Juntando-se a isso, o fato de Ronaldo surgir em uma época em que o esporte começava a extrapolar o limite das quatro linhas. Ronaldo era dono do seu prórpio corpo, ou melhor, Ronaldo era, e é uma corporação. Uma empresa rentável, sustentada com o suor de seu trabalho dentro de campo, bem como sacrifícios fora dele.

O jogador transferiu-se cedo para o futebol europeu. Conviveu com culturas diferentes, com a discriminação por ser um não-nativo, por não saber se comunicar com os seus pares. Soube aos poucos amadurecer sob a supervisão de uma família, sempre presente. Virou ídolo por onde passou. Infelizmente, como todo jogador talentoso, deixou órfãos os brasileiros que desejam ver craques desfilando nos gramados do país.

Curioso é como esse mesmo futebol globalizado afasta o povo dos espetáculos de futebol. Como Ronaldo, mas hoje em maior escala e mais velozmente, craques surgem da noite pro dia. Muitos de talento duvidoso. São vendidos e fazem ricos seus empresários. Tornam o futebol um negócio em detrimento do espetáculo. Chance de vê-los? Quase nula a não ser pela tela da TV.

As cifras altas dos contratos, os privilégios dados a certos jogadores e a vida de artista da bola se confundem com a vida de atleta da bola. O jogador, apelidado de Fenômeno pelos italianos, conheceu as duas faces da moeda. Sua vida pública passou a ser confundida coma vida de esportista, o que trouxe inúmeros prejuízos para sua carreira. Horas perdidas em vôos intercontinentais para gravações de comerciais. Visitas ao redor do mundo com embaixador da ONU, idas e vindas de relacionamentos que toda semana surgiam nos jornais e revistas especializadas. As inúmeras contusões nos joelhos, talvez até mal curadas por conta de tanta demanda emocional e carga extra de trabalho por conta dos inúmeros compromissos publicitários. O sombrio e misterioso episódio ocorrido na final da Copa de 98. Todos são ingredientes presentes na vida desse que passava de ídolo ferido a herói em cada retorno triunfal ao palco que o consagrou.

Dessa forma, os anos foram se passando para Ronaldo, como se passa para vários outros atletas. Sua carreira foi construída com o resultado da sua performance em campo. E com ele, os salários astronômicos, contratos de publicidade vitalícios, a benesse de todos ao seu redor. Ronaldo não é apenas mais um no cenário do futebol mundial. Muito do que o negócio futebol se tornou hoje, passa pelos seus pés, ou melhor, pelo seu bolso. O livro me fez olhar para ele de maneira diferente. Depois dele, Ronaldo, o futebol nunca mais foi o mesmo.

Para quem se interessar pela obra, seus dados:

Ronaldo - Glória e Drama no Futebol Globalizado

Autor: Jorge Caldeira

Editora: 34


Foto do Post: Saraiva.com.br