sábado, 14 de março de 2009

Heróis do Futebol

Como se reconhece um herói?

Alguns poderão dizer que ele é reconhecido por suas conquistas, suas façanhas históricas ou até mesmo pela idolatria que o cerca.
Outros dirão que um herói se reconhece por sua coragem, por seus atos e por sua nobreza.

A convite do meu amigo Michel, escrevi esse pequeno texto sobre ele...

Claudio Andre Mergen Taffarel – ‘O Mito de Luvas’

No dia 28 de setembro de 2003, o Jornal do Brasil trazia em destaque na sua página de esportes a seguinte manchete: ‘O Mito de Luvas Sai de Cena’. Não há melhor sentença para definir o que foi o gaúcho Claudio André Mergen Taffarel: um ‘Mito de Luvas’ na ‘Pátria de Chuteiras’. Taffarel foi o primeiro ídolo que tive no futebol. O primeiro que escolhi seguir de perto. E foi assim, o primeiro que vi sair de cena. O vazio que senti foi aquele que dá quando você vê que a vida segue e que aquele objeto de admiração não vai mais estar lá, do outro lado da tela, te fazendo vibrar.

Ouso dizer que a posição de goleiro no Brasil divide-se entre o antes e o depois de Taffarel. Foi ele quem abriu as portas do exigente mercado europeu para jogadores de sua posição. Não por acaso, hoje, o Brasil exporta goleiros para as principais ligas européias.

Imagine que Taffarel se destacava como jogador de vôlei por sua estatura. As peladas, só nos fins de semana. Aos 18 anos foi levado para testes no Internacional de Porto Alegre pelo prefeito de sua cidade natal, Santa Rosa. Chegou e fincou as travas de sua chuteira debaixo da meta colorada, onde permaneceu por 5 anos e foi duas vezes vice-campeão nacional.

Foi nas Olimpíadas de 1988, em Seul, que Taffarel passou do ostracismo ao reconhecimento da torcida brasileira. Atuando ao lado de Romário, Bebeto, Jorginho, Ricardo Gomes entre outros, a Seleção foi medalha de prata. Na semifinal deste torneio, na disputa por pênaltis, Taffarel defendeu duas cobranças na partida contra a Alemanha Ocidental garantindo assim, a vaga para a disputa da medalha de ouro. A medalha não veio, mas os frutos dessa geração foram colhidos mais tarde.


A Copa de 90 foi um marco pessoal em termos futebolísticos. Ali conheci muitos dos jogadores que me fizeram acompanhar o futebol nos anos subseqüentes. Maldini, Baggio, Möller, Klinsmann, Zenga e Taffarel. Veio o desgosto ao ver o Brasil cair de forma patética diante da Argentina, com um gol daquela jogada que fora cantada centenas de vezes em todos os jornais e programas esportivos da TV.

Para a carreira do jogador, o reconhecimento com a transferência para o futebol europeu. No Parma, time recém promovido à Primeira Divisão e patrocinado pela ambiciosa Parmalat, foram três anos celebrados com três títulos e uma saída polêmica. Criticado pela torcida, insinuava-se que sua contratação fora jogada de marketing da patrocinadora, que buscava entrar no mercado brasileiro, o atleta via seu espaço dentro do time reduzir cada vez mais. Taffarel, com contrato não renovado (nessa época, os clubes europeus poderiam ter apenas 3 estrangeiros na equipe), antes de se transferir para a Reggiana, chegou a jogar bola pela paróquia da cidade para não ficar parado. Participou, inclusive, de um torneio regional, atuando como atacante do time, o San Prospero, e foi artilheiro da competição! Foi um momento delicado também na sua vida pessoal. Nessa época, a esposa, Andrea ficou entre a vida e a morte ao dar a luz ao segundo filho do casal, Claudio.

Taffarel destacava-se por sua regularidade. Era seguro nas saídas de gol e era exímio pegador de pênaltis. Assim, em 94 veio a consagração. O tetracampeonato mundial com a Seleção na Copa dos Estados Unidos. Na final contra a Itália, o goleiro defendeu a cobrança de Massaro e viu Baresi e Baggio mandarem suas bolas para fora. O Brasil era campeão, Taffarel era destaque, mas estava desempregado. Seis meses de espera.

Encontrou no Atlético Mineiro a chance de retornar ao futebol nacional. Poucos sabem, mas o goleiro esteve para retornar ao Colorado nessa época, mas já havia no time uma promessa, o jovem André, que era reserva de Sérgio. No Atlético, engoliu sapos e frangos. Brigou com Emerson Leão e logo depois passou por maus bocados na Seleção, até ser afastado, após uma falha numa partida na Copa América contra o Uruguai. É. A vida de goleiro é feita de altos e baixos.

Na Seleção, o ano de 98 parecia promissor, mas o Mundial da França marcou de forma negativa a performance do Brasil que caiu diante da Seleção dona da casa. Taffarel mostrava-se seguro na meta brasileira - defendera pênaltis na semifinal contra a Holanda - mas a pane geral que ocorreu no jogo da decisão foi fatal. O Brasil retorna para casa de malas vazias e com a cabeça dos jogadores a prêmio. Com o fim da Copa, termina a carreira na Seleção do goleiro gaúcho. Foram 106 aparições e 3 Copas do Mundo.

Uma nova chance na Europa. Dessa vez na Turquia, no Galatasaray. Em 2000, na final da Copa UEFA, um momento memorável. Taffarel literalmente parou uma cabeçada à queima roupa de Thierry Henry. A disputa foi para os pênaltis e quando há Taffarel debaixo das traves... A Copa permanece como o único troféu continental do time turco.

Em 2001, um novo convite para defender AC Parma. Dessa vez, Taffarel sabia que seria reserva. Sua experiência seria usada para ajudar no desenvolvimento do francês Sébastien Frey, recém contratado. Como de costume, em alguns clubes da Itália, o goleiro reserva é utilizado nas partidas da Copa Itália. Taffarel foi fundamental na campanha que levou o AC Parma a conquistar seu último troféu. E com ele, os anos de fartura da Parmalat tiveram fim.

Em 2003, de volta à Itália após as férias no Brasil, Taffarel recebeu o que chamou de sinal de Deus. No caminho para o aeroporto, sentia que algo o incomodava, pois não se sentia feliz. Retornou para casa e continuou de férias. Parecia ser o primeiro momento de questionamento sobre seguir ou não com o futebol. Quando retornou para Parma em definitivo para a temporada, partia para Empoli para assinar contrato com o clube Toscano. Era o último dia do prazo que o clube havia dado a ele. Na estrada, sua BMW parou. Retornou para casa e viu que fazia algo contra sua vontade. Desejava mesmo estar em casa com a família. Sua esposa, Andrea, tentou convencê-lo a reconsiderar, mas sua decisão estava tomada. Pendurava as chuteiras e as luvas. Discretamente, sem jogo de despedida.

Hoje, Taffarel divide seu tempo entre sua empresa, que agencia jogadores, cujo sócio é o também ex-jogador Paulo Roberto, e a família. Visita Parma, onde mantém sua casa desde os anos 90. Costuma aparecer como convidado no Sportv em alguns jogos, como por exemplo, no ano passado, quando Brasil e Argentina duelaram no Mineirão. Na ocasião, perguntado sobre o melhor técnico que teve, não teve dúvidas em responder: Zagallo.