domingo, 9 de agosto de 2009

As Mãos De Meu Pai


'...Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...'

Trecho do poema 'As mãos de meu pai' de Mário Quintana

E para meu pai que me deu vida, dedico essas poucas linhas, que de um modo simples o descreve. Quando uma vez me perguntaram 'o que seu pai lhe ensinou que você considera mais importante?', naquela ocasião demorei a encontrar uma resposta que fugisse do 'tudo'. Há uns meses atrás, numa aula da pós, a professora nos indagou sobre o porquê de lermos. Foi nesse momento que vislumbrei a maior herança que meu pai me deixa: o gosto pelo saber.

Pequenina, sentava no colo dele quando o via em casa lendo jornal. Me lembro que ele lia para mim antes de dormir e, que cansado, pulava partes, para que o livro terminasse e ele pudesse finalmente dormir. Mas a pequena Cyntia, de olhos graúdos, não deixava por menos. Dizia a ele que faltava uma parte, e mesmo com os olhos quase vencidos pelo sono, ouvia tudo atentamente e um mundo novo ganhava vida nos meus pensamentos. Procurava repetir os trechos que já sabia de cor. E pedia mais.

Chegou o dia em que sozinha já podia ler. Esse mundo ficou ainda maior e percebia aos poucos que nele, eu também ganhava vida própria. Diferente da que vivia. Nele, os sonhos de criança viravam realidade. Tudo isso aprendi com os livros. E os livros foram presentes de meu pai. Comecei a escrever para colocar no papel, esse mundo imenso que já não cabia mais dentro de mim. Mais uma semente plantada por esse homem que desejou tanto que eu nascesse.

Se ele se lembra do chinelo que eu, engatinhando, colocava na porta ao ouvir o motor do carro no fim do dia, sou eu quem lembra que aos 10 anos, ele me matriculou num curso de inglês para que eu começasse, desde criança, a ter interesse por outras culturas. Um dia ele me mostrou a foto que fizemos lá no World Trade Center, há anos atrás. E eu mostrei a ele, a foto que fiz na casa de Freud. Se cheguei até lá, foi porque ele me ajudou.

Não existe em loja alguma o presente que gostaria de dar ao meu pai neste dia. Existe apenas minha imensa gratidão por ele ter me guiado e apoiado ao longo desses anos. Se um dia tiver meus próprios filhos, gostaria de ser para eles o que meu pai é para mim: mais do que um pai, um amigo, uma luz. E que quando ele me faltar, que a dor que permanecerá em mim, seja ao menos aplacada pelo carinho e amor que ele me dedicou ao longo de sua existência. Serei eu a ouvir sua voz à noite a dizer carinhosamente: 'boa noite, chiquinha' e a sentir suas mãos acariciarem minha cabeça, da mesma forma que ele fez, quando se despediu de mim, no meu primeiro fim de semana no Rio, para que eu seguisse meus próprios passos.