sexta-feira, 18 de setembro de 2009

The Bid

Sou valioso. Da última vez que me compraram, fui cotado em 6 milhões de libras em valores atuais. Mas isso foi em 1930. De lá pra cá são mais de 75 anos e o mercado tem outras regras. Dizem por aí que meu valor se agigantou. Não sei, não. Acho que andam exagerando um pouco. Mas pensando bem, se Cristiano Ronaldo vale 96 milhões, perto dessa cifra, meus 41 são fichinha. Afinal, sou um morto eternizado que está a distância de um clique dos seus olhos.

Nesses últimos anos, e bota anos nisso, estive recluso. Prefiro deixar pra lá qualquer especulação sobre meu paradeiro. Após 40 anos resolvi aparecer de novo e ver como andam as coisas nesse tal mundo globalizado. Me assustei um pouco. É muito dinheiro rolando nos negócios, muita fome e miséria, enfim, tudo era como em 1658, ano em que nasci, exceto pela virtualidade - conceito mais esquisito. Poucos com muito, muitos sem nada. O mundo numa tela, que em nada se parece com as canvas que meu mestre usava para contar suas histórias.

Não vivi a fartura e fama de meu pai. Ele era um daqueles homens que gastavam mais do que suas posses permitiam. No fim da vida, vendeu suas obras a preços irrisórios e pior, desfez-se de nossa linda casa. Tudo isso por conta da crise que se abateu sobre a família. Meus caros, aprendi com esses revezes nos poucos anos em que vivi com meu pai. Ele foi um mestre com os pincéis nas mãos. Já não se podia dizer o mesmo com a calculadora. Muitos o consideram um grande ícone da pintura mundial. Não posso dizer muito pois a modéstia habita meu ser e não me permitiria narrar aqui as virtudes de minhas raízes. Detestaria soar arrogante ou presunçoso. Entretanto, tenho orgulho de fazer história. No mundo dos milhões, ser da arte tem lá suas compensações. Mesmo que não possa usufruir delas. Esse sou eu...

"Homem, a Meia-Distância, com as Mãos na Cintura" em retrato de Rembrandt