domingo, 27 de setembro de 2009

'PDV' à la Italiana

Excepcionalmente neste final de semana, a coluna oficial do Calcio dá lugar a uma tentativa de reflexão. Ela começou na semana passada e culminou com um desabafo via Twitter com palavras que nem ouso reproduzir aqui.

Me chama a atenção da predileção da imprensa por essa ou aquela agremiação quando se trata do futebol brasileiro. Nunca acreditei que seria diferente com relação a uma equipe estrangeira. Afinal, os campeonatos são veiculados pelas emissoras de TV que devem fazer deles produtos atraentes aos consumidores. Mas cheguei ao ponto de não ter mais nenhuma dúvida. Hoje tenho uma certeza tão absoluta quanto a de Newton quando a maçã caiu em seu colo e ele 'descobriu' que existia a gravidade.

Veja o caso das emissoras do grupo ESPN, que começaram a transmitir nessa temporada o campeonato russo - novo destino de muitos jogadores brasileiros. Acredito que essa escolha tenha se baseado justamente nesse critério. Atender a uma suposta demanda do público nacional interessado em acompanhar a carreira de jogadores brasileiros que se espalham por ligas no mundo tão adoradamente classificado como globalizado.

Com o Calcio, isso não é diferente. Basta lembrarmos que a emissora Bandeirantes, no passado a detentora dos direitos de transmissão do Calcio para a TV aberta, voltou a mostrar o campeonato italiano para todo o país após a ida de Ronaldo para a Itália (deixou o Barça), para defender as cores da Inter de Milão. Antes disso, as transmissões eram intercaladas, e chegaram a mudar de mãos por um pequeno período de tempo para a recém criada Rede TV! que não detinha a mesma estrutura da concorrente, mas contava com um comentarista conhecido pelas mais diversas gerações de seguidores do futebol italiano: Silvio Lancellotti.

De uns anos pra cá, com a expansão da TV a cabo no país, as opções de programação passaram a ser um 'benefício' para os telespectadores. Mas mesmo assim, a questão da audiência ainda fala mais alto quando o assunto é escolher as partidas a serem transmitidas, sem contar com os horários das mesmas e a variedade de ligas que são mostradas atualmente. Hoje, temos pela TV os jogos do Alemão, Italiano, Espanhol, Francês, Português, Holandês, Inglês e agora o Russo. Sem contar o período de jogos do Brasileirão, competição doméstica cujos horários pouco coincidem com os as ligas estrangeiras.

Ora, acredito que a audiência deva ser uma fotor determinante, mas algo me chama a atenção. As TVs negociam os pacotes com as diferentes emissoras detentoras dos direitos de transmissão. Quero ressaltar, que no caso da Itália, a Sky vende internacionalmente o Calcio. A saída de Ronaldo da Internazionale (saiu para o Real Madrid) deixou um gap que essa squadra ocupava na nossa mídia pela presença do brazuca em campo. Algo justo se lembrarmos que naquela época, tínhamos as emissoras ESPN responsáveis pelas partidas mostradas no Brasil possuía dois canais nas TVs por assinatura. Sabia-se que a Inter era presença praticamente garantida nas salas e bares por esse Brasil. Dessa forma, um outro time, sujeito a variações semanais, ocuparia as outras duas faixas, já que ainda havia os instituídos anticipi e posticipi para cada rodada.

Hoje no país, o Calcio é transmitido por 3 canais distintos. Os contratos são negociados com a mesma Sky, mas algo mudou. O retorno de Ronaldo para a Itália (Milan), trouxe de volta o apelo para o futebol italiano. Junto com ele, a incessante busca da imprensa em colocá-lo como um eterno craque que, tendo recuperado mais uma vez a vontade de jogar na Itália, poderia transformar o monótono Calcio em um protudo viável aos seus seguidores no país e alavancar uma audiência ainda maior. A aventura do Fenômeno durou alguns meses. Veio a enésima contusão e o confinamento longe dos gramados. A tentativa de recuperar o prestígio do jogador foi transformada num épico: drama, paixão, glória e redenção.

Ele não voltou ao Calcio. Enquanto isso, a Internazionale de Milão, supostamente uma squadra de mais brasileiros, também estava presente nas tardes de sábado ou manhãs de domingo. E foi campeã uma, duas, três vezes. Mas nunca foi um time tratado com a mesma emoção. Era aquele time que estava lá porque devia estar, afinal vencia de semana a semana com futebol vistoso.

O Milan, não. Esse, independente de tudo, era tratado com deferência e merecia sistematicamente as escolhas dominicais, mesmo quando a fase não era das melhores. Hoje, a preferência continua sendo sua. A fase é das piores, mas há um algo a mais. O apelo de Leonardo no banco de reservas. A presença de Gaúcho no time e a permanência de Alexandre Pato na equipe. Tenho a constante sensação de que a simpatia rossonera passa por esses pontos. Enquanto isso, times cujas campanhas superam as dos rossoneri não estão presentes na sua TV. O que diga a Sampdoria, Fiorentina, Udinese, Parma e o Genoa, que desde a temporada passada se destacou na competição. A não ser em casos em que elas enfrentam times poderosos como Roma, Inter e Milan, você não saberá da existência delas. Vai ter que ler Gazzetta dello Sport, Corriere della Sera, assinar a Guerin Sportivo e comprar o anuário da Panini e não ser professor para ter dinheiro para manter esse luxo todo. E lógico, ter aí no mínimo umas três horas a mais no seu dia.

É indiscutível que o Calcio perdeu espaço para as outras ligas por motivos amplamente discutidos em mídia falada e escrita. Inclusive, partidas noturnas de sábado e domingo de equipes fora do eixo citado não são veiculadas. Ontem, não se viu por aqui Livorno e Fiorentina. Na semana passada, no sábado, tão pouco no domingo passado, viu-se o posticipo entre Genoa e Napoli. O que era de costume no passado, foi dando lugar a uma cada vez maior repetição de padrões: o Milan é o time preferido dos canias de TV só que um dos motivos da preferência está se tornando incômodo. Ele se chama Leonardo. Escolhido para 'substituir' Ancelotti no banco rossonero.

A escolha dele foi elogiada por vários comentaristas, apesar da ressalva de sua pouca experiência. Foi nitidamente uma questão de patriotismo e puxa-saquismos baratos. Tão ligado a Galliani e a Berlusconi, se tornou produdo de propaganda por aqui. Queriam transformá-lo no mártir capaz de colocar o Milan nos trilhos, após os fracassos da última temporada. Só que hoje, a coisa mudou de figura. Na transmissão da ESPN, o 'treinador' brasileiro foi constantemente criticado por Lancellotti e seu colega João Palomino. De repente olharam pra ele e descobriram que aquela figura simpática não é bem aquilo que eles vendiam nessas 5 últimas semanas. De quebra, sobram críticas às pífias performances de 'Dinho. Que passa mais tempo na boate do que nos campos de Milanelo a treinar. Mas como assim? Eles não seriam os pilares desse novo Milan, vendidos por 9 em cada 10 jornalistas?

Entretanto, o ápice foi na semana passada. Enquanto a líder Sampdoria jogava contra o Siena e a Inter duelava com o Cagliari, SporTV e ESPN transmitiam o quê? A esperadíssima partida entre Milan e Bologna, vencida pelo time de brasileiros. Ou seja, os telespectadores ficaram sem escolha. Sujeitos às preferências por esse ou aquele queridinho que dá audiência. Quem gosta de Calcio vê até Catania contra Bari, que não duvido nada, podem fazer uma peleja ser bem mais interessante do que um cotejo envolvendo o Milan. Aliás, as partidas da Serie B podem ser mais interessantes do que algumas da Serie A!

Bem, eu ao menos fui à praia, tirei fotos e ouvi os pássaros cantando 'Il cielo è sempre più blù(cerchiato)'

Leonardo: aos poucos, o sorriso vai sumindo...