quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Outono do Rio


É no outono que a beleza do Rio se manifesta de forma mais sublime...

SONATA DE OUTONO por Marcelo Migliaccio no JBlog
http://www.jblog.com.br/rioacima.php

Está chegando ao final a estação mais injustiçada do ano. No próximo dia 21, começa o inverno, e muita gente que vive apressada não teve tempo de olhar ao redor e ver que é no outono que a Cidade Maravilhosa fica ainda mais bela. Mesmo quando há neblina, fenômeno típico destas manhãs, a névoa compõe magistralmente o quadro com o mar, o céu e as montanhas.

Outro dia, escrevi aqui sobre o Seu Miranda, um velhinho que fez para mim o papel de avô em boa parte da infância e adolescência. Pois ele sempre dizia que a natureza não dá saltos – aliás, uma lição de paciência que temos que aprender. E lembrava que as estações do ano são uma prova de que as transformações são graduais, citando, inclusive, a origem latina da palavra primavera:

Primo vero quer dizer primeiro verão.

O verão é a estrela da companhia, principalmente numa cidade litorânea e tropical como a nossa. É a época dos corpos expostos, da pegação, das férias. Mas também vem acompanhada daquele estresse de Natal, da confusão do Réveillon e da babel carnavalesca. Tem muita gente que manda o Oceano Atlântico às favas e pica a mula do Rio na estação mais quente – cada vez mais quente, diga-se, por causa do aquecimento global. Um suplício para quem é obrigado a dar duro no batente encharcado de suor e de mau humor.

Para quem ama o verão, o inverno é o vilão da história. Frio? Não nascemos para isso, e a maioria de nós nem tem casaco. Repare como os cariocas andam em mangas de camisa, de bermuda e chinelo até mesmo nos dias mais gelados do ano. Dá até pena vê-los bater os dentes nos pontos de ônibus.

A primavera é a adolescente da história, a mocinha indefesa. Menina bonita, enfeitada com flores, mas sem a atitude do herói quente ou do bandido frio e calculista. Todos admiramos a estação floral, mas, qual uma virgem, ela permanece numa redoma, incapaz de causar amores extremados ou ódios mortais neste enredo carioquês.

E o outono, que agora se encerra, fica ali, num canto do palco, meio esquecido pelo autor do roteiro e pela platéia.

Mas não por mim.

Adoro a limpidez desses dias coloridos. Ok, não dá para ir à praia, mas pelo menos a canícula a que nos acostumamos se transforma numa agradável e leve brisa. Como se estivéssemos em Petrópolis aos pés do Corcovado e do Pão de Açúcar.

Imagino que devemos ao outono as belas obras que pintores como Debret e Taunay deixaram por aqui no século 19. Aposto que foi nesta estação que perceberam e eternizaram a beleza inigualável do Rio de Janeiro.

Foto: arquivo pessoal