domingo, 24 de abril de 2011

Os dois lados de Nina


Nina Sayer, bailarina obcecada pelo seu trabalho. Sua identidade se resume em ser dançarina. Ela vive para o trabalho. Não se dá tempo para se divertir. Seu grande sonho? Ser a protagonista do balé 'O lago dos Cisnes'. Para isso, tenta convencer seu diretor de que poderia ser a grande estrela da produção. Desempenhar os dois papéis de tamanha profundidade seriam um desafio, mas fora para isso que se preparou ao longo dos anos.

Doce, meiga, seu jeito cairia perfeitamente para o papel de 'cisne branco', assim disse o diretor no momento do teste'. Mas para ser o alter ego, o perverso e sedutor 'cisne negro', ela teria que passar por uma metamorfose. 'Mudar' sua personalidade para poder explorar emoções desconhecidas. Ler o mundo de forma diferente, com o olhar do sinismo, da sedução e do desejo. A que custo? Seria então a frágil Nina capaz de transformar-se para esse papel?.

Essa batalha de Nina para vencer seus medos e inseguranças para alcançar as profundezas de um ser desconhecido por ela,  o ponto abordado no filme 'Cisne Negro'. Darren Aronofsky, diretor conhecido de produções como 'Réquiem para um sonho' e  'O Lutador' gosta de explorar os limites humanos em suas películas. Nesta, ele vai até ao limite entre sanidade e loucura. Até que você não perceba mais o que é real ou irreal na vivência de Nina. Seus tiques, seu auto-flagelamento, seus devaneios e experiências sexuais, todos fazem parte da construção de uma personagem que durante todo o tempo nos confunde com a persona Nina.

Seu constante conflito de não conseguir se transformar na protagonista ideal faz com que ela chegue ao absurdo de deixar-se levar pelo sonho único de ser a bailarina a qualquer preço. Acompanhada pelo diretor canastrão, uma mãe castradora e a sombra de uma rival 'poderosa', assim vista por Nina, ela sucumbe sem saber que a única pessoa capaz de derrotá-la é ela mesma.

Ao ver esse filme, senti-me mais do que uma expectadora na tela do cinema. Me senti dançando no palco com Nina. Me vi na platéia do Teatro acompanhando o balé. Ouvia as batidas fortes do meu coração ao som da música de Tchaikovsky. Vi o perigo bem próximo na respiração de Portman. E senti um alívio pelo seu sofrimento ter acabado, ainda que de uma forma trágica. Como Odette, o cisne branco, ela prefere dar fim ao seu sofrimento, escolhendo o palco para encenar seu ato final.

Ps. Adoro a Natalie Portman e acho que seu Oscar foi mais do que merecido. E recomendo esse filme a todos aqueles que se interessam em explorar alma humana.