terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tears In Rio

O precisoso ingresso

Pra mim, o Rock In Rio passou longe. Preferi esperar por um show que literalmente espero há anos. A vinda do Tears For Fears completo ao Rio. Quero dizer, a presença de Roland Orzabal e Curt Smith, já que em 96, Roland veio sozinho com a banda, sem seu companheiro de palco, durante uma breve separação.

O Citibank Hall estava lotado. Algo que já era esperado. Parece que é hábito agora dos cariocas comprar ingresso em cima da hora. A fila do lado de fora era grande, e com as críticas dos shows da banda em São Paulo e Porto Alegre sendo positivas, a galera resolveu conferir ao vivo o que já sabem ao ouvir qualquer Cd do Tears: eles são bons. E ao vivo a qualidade permanece. Confesso, para mim, o show foi muito além das minhas expectativas. 

Não costumo ir a shows de banda pop-rock. Eu curto mesmo é show de roqueiro maluco. Nem sabia direito como me comportar e o que esperar. Mas não há como negar que você estar num show em que você sabe cantar as músicas e tem espaço para dançar, levantar os braços e viajar com o que ouve é maravilhoso.  O tom foi dado com a primeira música, um dos maiores sucessos da banda: "Everybody Wants to Rule the World'. Sacode pra lá, sacode pra cá, eu mal podia acreditar no palco iluminado e o telão ao fundo com imagens psicodélicas e todos cantando. E Roland Orzabal com seus cabelos ao ombro, como na década de 90. E ao lao dele, Curt Smith e seu baixo, cantando 'welcome to your life, there's no turning back...' 

O grupo imaginou um set list perfeito. Misturou canções mais antigas, com as da década de 90 e trouxe algumas menos conhecidas. É inegável que se trata do show de um grupo de hits radiofônicos. Quem não conhece 'Sowing the Seeds of Love' e 'Head Over Heels'? Obviamente, elas jamais ficariam de fora de um mísero show que durasse 20 minutos.

Infelizmente, no domingo do show, houve um apagão em algumas regiões do Rio de Janeiro que de alguma forma afetou o som nos primeiros minutos de show. O público reagiu de forma bem humorada e contou com a paciência de Mr. Orzabal e do resto da banda. Após o problema ter sido solucionado, nada mais pode atrapalhar a estupenda performance da noite.

Vieram músicas menos conhecidas, como 'Everybody Loves a Happy Ending', do CD homônimo, quase desconhecido do público local. E para minha surpresa, o grupo tocou 'Badman's Song', que eu adoro. Uma música com uma sonoridade jazzística, emprestada pelo piano e a voz de Oleta Adams. 

'... In my head there is a mirror 
When I've been bad, 
I've been wrong
Food for the saints that are quick to judge me
Hope for a Badman
This is the Badman's Song ...'

Do álbum 'Elemental', que fez um razoável sucesso por aqui, eles escolhera, 'Break it Down Again', mas deixaram de fora 'Goodnight song'. Aliás, a primeira, que me faz lembrar exatamente dos tempos de faculdade na década de 90, quando ter um CD ainda era caro e esse, difícil de achar e ainda tinha que recorrer ao velho rádio para gravar e ouvir mil vezes depois no walkman!

Curt Smith e Roland Orzabal se alternavam nos vocais das músicas. O último, sempre procurando interagir com o público, não se restringindo somente ao 'Obrigada, Rio'! Mas sei lá, fiquei com a sensação de que havia um ponto o ajudando com a cola... Ainda bem que não teve bandeira do Brasil, nem camisas da Seleção. Esses clichês, que na minha opinião, são ridículos. 

Esperei muito para ouvir 'Pale of Shelter', um hino aos anos 80, na minha opinião. Aliás, o CD 'The Hurting' é perfeito. Quando o comprei há uns 5, 6 anos atrás, ouvia sem parar e até hoje quando dá saudades, escuto sem pular uma música sequer. Só tem música boa, mas que, infelizmente, não entra num setlist de show revival como esse. Ainda bem que não deixaram de fora 'Change' e 'Mad World' e a própria 'Pale of Shelter'.

Parte fundamental de uma 'cdteca' o pop-rock, 'Songs for the Big Chair', foi representado com 'Head Over Heels', Everybody Wants...' e com a música que fechou a noite. Lamentei enormemente que 'Working Hour' não seria apresentada. Já esperava por isso. Essa é a minha música preferida do Tears For Fears. Uma espécia de amuleto pessoal. Essa foi uma daquelas músicas que gravei numa fita, de um programa de rádio, quando ainda morava em Volta Redonda e a carregava comigo para onde ia. Amo os solos de saxofone que colocaram nela!

Do álbum florido 'Sowing the Seeds of Love', foram incluídas 'Badman's Song', 'Sowing the Seeds of Love', 'Advice for the Young at Heart' - cuja versão ao vivo me decepcionou um pouco, pela falta de um clima mais intimista, que na minha opinião, a música evoca. Sempre vi na minha cabeça, uma roda de amigos, num verão, cantando essa música com piano e violão, oferecendo-a a um casal em sua festa de casamento. Aliás, assim é o vídeo! E não ficou de fora a maravilhosa 'Woman in Chains'. Perfeita e libertária. Quem não se lembrou daquele vídeo fantástico e da propaganda do cigarro Hollywood?  Ficou de fora, 'Famous Last Words'. Meu protesto. Aliás, sempre que leio críticas desse álbum, leio boas coisas sobre ele. Foi a retomada da carreira da banda numa época em que o grunge surgia, o pop-rock-metal ganhava adesões midiáticas. Hoje vejo que a carreira musical de bandas dos anos 80 foi sepultada na década de 90 pelo Nirvana, Metallica, Back Street Boys e afins. Poucos sobreviveram para contar sua reviravolta. O Tears foi uma dessas bandas. Ainda bem.

 '... We will sit by candlelight
                                                                        We will laugh 
We will sing ...'

O final ficou por conta de 'Shout'. Não poderia ter fechado a noite em melhor estilo. E assim, o Tears For Fears, em quase duas horas de show, botou fogo na fria noite de sábado do Rio de Janeiro. Com direito a apagão e som ruim no começo, foi um show para não ser esquecido. E pra mim, valeu pela chance de voltar no tempo várias vezes. Fechar os olhos e deixar a música me levar...

'Shout'